Páginas

segunda-feira, 12 de abril de 2021

O Filho Eterno (livro de Cristóvão Tezza)

Nada como um dia após o outro... 

Pra que chorar, pra que sofrer
/ Se há sempre um novo amor
/ Cada novo amanhecer

 (Vinicius & Baden)

Como ser gauche:

Há dois anos, mais ou menos, numa conversa de botequim sobre filmes que cada um tinha visto recentemente, confessei que não me atraíam filmes feitos para a gente sofrer. Um pouco daquele papo de "de amarga, basta a vida".

 

O meu incômodo, expliquei, dizia mais respeito a um público que só vê profundidade em um assunto se este falar de misérias extremas: físicas, psicológicas, econômicas, sociais... É uma discussão antiga, na qual a Comédia é encarada por muitos como um gênero menor. Importantes, para estes, são o Drama e a Tragédia.

Comédia e Drama

Também me revoltam filmes, livros, etc. quando partem para a apelação tratando desses assuntos dramáticos para ganhar facilmente esse tipo de público.

 


No meu tempo (ai, meus tempos!...), fui dos pouquíssimos que se recusaram a assistir o filme Love Story, primeiro porque era um blockbuster – palavra que ainda não existia na nossa língua –, mas, principalmente porque todos o adoravam por terem chorado muito. Não vi até hoje.

 

Acho que fui o único brasileiro da minha época que não leu Meu Pé de Laranja Lima. Mesmíssimos motivos. Também não li até hoje. Mas vi o filme recentemente na televisão. Chorei como um desgraçado. Adorei e recomendei a todo mundo. Vou ler o livro algum dia.


 

Surge o livro

 


Nessa conversa no botequim, meu amigo perguntou se eu tinha lido O Filho Eterno, do Cristóvão Tezza. Recomendou muito, dizendo que provavelmente eu iria gostar, apesar do assunto brabo. Pensei comigo: "ora, já tenho tantos livros pra ler...". E esqueci.

 

Meu amigo fez então a coisa certa, me deu o livro no meu aniversário. Onze meses depois, procurando um livro de menos páginas para ler na condução, peguei-o. No ponto do ônibus, comecei pela orelha e quase me arrependi da escolha. Era sobre uma criança com mongolismo!

 

Sabia que Cristóvão Tezza era um dos mais elogiados e premiados escritores brasileiros atuais. Um livro pequeno. Vou insistir! Fui fisgado, na orelha mesmo, pela palavra Curitiba.

 


Morei lá de 1965 a 1967, o que foi profundamente marcante. A cidade e a época. Agora aposentado, pensava em relembrar as experiências boas e ruins, conversando, pesquisando e fantasiando muito. Quem sabe escrevendo aqui sobre essas experiências?

 

E aí tenho dois assuntos a tratar, sobre o livro que eu li e sobre as consequências das lembranças.

 

 

Assunto 1

O livro O Filho Eterno

 

Sim, gostei bastante do livro. Não posso recomendá-lo porque tenho por princípio não recomendar nada. Espero que os meus comentários a seguir, sobre o que gostei no livro, motivem quem, se identificando com o meu gosto, deseje conferir o prazer da leitura dele.

 

Não vou resenhar a "história" contada no livro, pois grande parte desse prazer foi tentar antecipá-la em cada parágrafo, frustar-se cada vez que o suspense era mantido e se surpreender com a crueza da realidade dos desfechos de cada situação e com a honestidade envolvida no ato de narrar esses desfechos. Por isso, recomendo (pronto, quebrei a promessa!) que não se leia a orelha do livro, nem resenhas da história.

 

Muitos, na internet, se dedicam a falar sobre o estilo do livro, as técnicas literárias empregadas na escrita e blá-blá-blá. Não tenho capacidade para tal e isso não é o que me motivou à leitura. Apenas digo que o escritor caprichosamente me envolveu na travessia das palavras, parágrafos e capítulos, do início ao fim do livro.

 

É meio difícil fugir a algumas observações sobre técnicas e estilo que são sempre citados nesses textos e vídeos sobre o livro. A primeira delas é: trata-se de uma ficção ou memória autobiográfica? O próprio autor apresenta-a como ficção, mas aceita ser também uma memória. Li-o fundamentalmente como ficção, o que me deu mais prazer na leitura. Em vários momentos a curiosidade fez-me buscar no google alguns acontecimentos narrados e perceber que eram reais, o que aumentava a graça da leitura como ficção e não como uma simples narrativa fiel a memória (existe isso?).

 

O que todos citam é que a chave disso é o livro ser escrito na terceira pessoa. Numa memória autobiográfica, o mais simples seria o narrador usar a primeira pessoa - "eu"- para que o leitor confunda o protagonista com o autor da obra. Não é isso o que o autor, Cristóvão Tezza, faz. O protagonista, que é um escritor, sequer tem seu nome mencionado, é sempre referido como "ele" ou "o pai". Isso é mais importante porque enfatiza a distinção entre a pessoa "o pai", descrita em cada momento do livro, e a pessoa "o autor" (Cristóvão Tezza) após ter passado pela formação que a própria história conta. 

 "...tem a viva sensação de que [o autor] é escrito pelo que escreve ..." 

(C. Tezza)
acrescentei o [o autor]

A escrita na terceira pessoa também facilita a empatia do leitor com o personagem. A todo momento o leitor se pergunta "se isso fosse comigo?" e se sente capaz de pensar exatamente como "o pai". 

Pode-se perceber que as próprias características da escrita do livro são fruto da história contada, ou seja, os acontecimentos como que explicam, pela vivência, os tais estilo e técnicas. Por exemplo, a natural arrogância juvenil do "pai" contrasta com a humilde sinceridade da narração.

"Nada do que não foi poderia ter sido"
 ("o pai")

A tal empatia que o leitor (eu, no caso) acaba tendo com o personagem foi o que realmente me cativou desde o início na leitura. Graças à honestidade e coragem da descrição que é feita do "pai", seus pensamentos, suas ações e atribulações, o leitor é desafiado a ser também honesto e corajoso. Talvez nem todos os leitores consigam ter prazer em ter que abandonar seus próprios pensamentos hipócritas, ou admitir a sua crueldade inerente própria de quem está fora do drama real específico, para aceitar um personagem não hipócrita diante de questões dramáticas reais. Na ficção essa distância é mais assimilável. Esses leitores podem, durante a leitura, ficar desejando a tradicional "virada e superação" na história. Podem até achar que o final da história seguiu esses cânones do cinema americano. E até gostar do livro por isso. Mas não terão sentido o prazer de se identificar com a humanidade do protagonista.

 
Match Point (Woody Allen) - o autor decide "viro ou não viro"

Um outro ponto, que particularmente me é caro e que me fez aproveitar ainda mais o livro, foi o  entremear na história das dificuldades, conflitos, expectativas, desesperos e desesperanças que um artista frequentemente passa antes dele conseguir uma (eventual e rara) realização verdadeira. Isso não é mostrado através de uma enumeração ou descrição desses problemas; sim pelo surgimento de situações reais, inevitáveis muitas vezes por conta do ambiente ou da psicologia do infeliz abençoado com a tal "alma de artista". O meu sentimento relativo às agruras dos artistas, despertado na leitura de O Filho Eterno, foi semelhante ao que tive lendo a primeira metade de Servidão Humana (Of Human Bondage) de Somerset Maugham. Espero ter tempo de um dia, ou muitas vezes, falar aqui desse assunto e também desse outro livro que adorei.

 

O escritor Cristóvão Tezza

 


Aqui só me cabe dizer que é considerado como um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, superpremiado e publicado aqui e lá fora. Para conhecer mais detalhes sobre ele, não existe melhor maneira do que ler O Filho Eterno.

Também vale ir à página dele e à wikipedia.

Assunto 2

Minhas lembranças curitibanas

 

Como eu disse, a menção a Curitiba logo na orelha do livro atiçou minha curiosidade pelo livro.


Morei lá de 1965 a 1967, de 12 aos 15 anos, e me vejo sempre lembrando, conversando e fantasiando muito sobre esse período da minha vida.

 

Na leitura de O Filho Eterno, o que disparou a minha fantasia foi, logo na página 74, ser dito que "o pai" escritor, que tem as mesmas marcas históricas do autor Cristóvão Tezza, ter nascido em 1952. Ora, eu também! Teríamos mais ou menos a mesma idade. Inclusive na época em que eu morava em Curitiba, ora! 😏

 

Para conferir se o ano de nascimento do "pai" de O Filho Eterno era o mesmo ano do Cristóvão Tezza, pesquisei na wikipedia, onde diz que o autor nasceu em 21 de agosto de 1952. Que nem que eu !!! Nascemos no mesmo dia !!!

 

Em 65, Curitiba tinha uma população estimada de 500.000 habitantes. Mas para mim era como uma aldeia grande. As ruas calçadas, por exemplo, iam do Alto da Rua XV até o Batel, além desses extremos as ruas eram de barro. Frequentemente eu caminhava toda essa extensão que ia do colégio no Batel até a casa do meu colega, exatamente no tal Alto da Rua XV. Uma hora e pouco de caminhada, 5,5 km. Menos do que andar do Posto 1 no Leme ao Posto 10 em Ipanema. Ou seja, era uma cidade pequena.

 

Não sei, mas não devia haver muitos ginásios nessa aldeia. Pelo Anuário Estatístico Brasileiro do IBGE vi que só havia 20 ginásios estaduais em todo o município. Me veio a ideia de que, por termos (exatamente) a mesma idade, haveria a possibilidade de termos sido colegas de escola. Para mim é uma relembrança quase impossível. Eu só fiz dois amigos nesses três anos, ambos cariocas como eu, de passagem pela cidade. Mais do que isso só lembro de pouquíssimos colegas e de nenhum nome.

 

Do pouco que me lembro da época, um episódio me marcou a ponto de frequentemente eu tentar reconstituir mentalmente os detalhes. No intervalo de recreio no ginásio, tinha um colega que não ia para o pátio. Eu ia, mas preferiria não ir. O pátio era dividido: num lado ficavam os meninos e no outro as meninas. Não era permitido contato entre gêneros distintos. Desanimador. Eu, curioso para saber se o colega, que assim como eu não se socializava, tinha o mesmo motivo, cheguei a ele e perguntei que livro ele estava lendo, já me intrigando pela cor amarela da capa me ser familiar. A resposta dele, com ar de "por que esse chato está querendo me incomodar?", foi algo como "sobre educação na Inglaterra" (conto como costumo me lembrar e não como exatamente foi). Reconheci o livro e perguntei: Summerhill?

 


Meu pai tinha comprado o livro e eu já lera boa parte dele. Os olhos do meu colega se arregalaram e o resto da conversa eu não lembro mesmo, até porque já inventei dezenas de desfechos. Não sei se algum aconteceu. O nome do colega era Jairo. Jairo?

 

Acontece que na página 168 de O Filho Eterno, está escrito que "o pai", então com 16 anos, leu Summerhill. Com 16 anos, em 1968, eu já estava de volta no Rio. Mas... e se o autor se confundiu na data de uma memória tão distante que eu quase não me lembro de nada? Achei meio difícil imaginar que na Curitiba de 1967 três adolescentes leram Summerhill. Pela visão que eu tinha daquela aldeia, isso era muito improvável. Mas não impossível. Jairo seria o Cristóvão?

 

Sempre converso, nas reuniões de família ou com os amigos, sobre os livros que estou lendo ou acabei de ler. Contando esses detalhes acima, todos sempre diziam eufóricos "escreve para ele e pergunta".

 

Foi o que fiz, escrevi um email a pretexto de desejar feliz aniversário atrasado e aguardar retribuição por sermos gêmeos nesse aspecto, contando todas essas minhas especulações sobre possíveis coincidências.

 

E ele me respondeu. Não podia ser mais amável e generoso. Contou em detalhe as datas e colégios onde estudara. De fato ele estudou no mesmo colégio que eu, mas em épocas diferentes. Ele no primário e eu no ginásio.

 

Somando todos os detalhes, concluí que ele não era o Jairo.

 

Achei a história das coincidências reais muito legal, porém a história com as coincidências prováveis que imaginei mais legal ainda. Como dizem os italianos

 

Se non è vero, è ben trovato.

 


Ou em português 

Se a versão é melhor que os fatos, que se danem os fatos.


.O inesgotável poder da mentira se sustenta sobre o invencível desejo de aceitá-la como verdade

(C. Tezza)

sábado, 22 de julho de 2017

Frantz (de François Ozon) e o elogio à mentira

O mundo tem dois tipos de pessoas: os que confessam que mentiram e os que mentem.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
          Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. 
         (uma confissão de) Fernando Pessoa

Mentir, palavra feia, nada mais é do que criar uma ficção e fingir que ela é a realidade. Já ficção é palavra bonita.

Para criar uma ficção é preciso imaginação, fantasia. O futuro, por exemplo, é uma ficção. Apenas podemos imaginá-lo e tentar acreditar nessa mentira até que ela se torne real ...ou não.

Nelson Rodrigues: "sem sorte você não atravessa a rua""
Parafraseando Nelson Rodrigues: sem fantasia você não atravessa sequer uma rua! É preciso imaginar, antes de atravessar, que vai-se ter sucesso.

Eu, por exemplo, fico o tempo todo inventando histórias. Adorava fazer viagens longas de ônibus (para o Fundão, por exemplo) passando um tempão ficcionando. Nem sei quantas vezes fui presidente, técnico de futebol e namorei alguma menina de quem nunca tive coragem de me aproximar.

Todos inventam histórias, até quando não querem. Ao ser apresentado a uma pessoa, cria-se toda uma fantasia sobre ela, mesmo inconscientemente. Essa fantasia vai se aprimorando, se corrigindo ou criando novos enganos à medida que mais informação sobre a pessoa surge. E acreditamos nessa nossa fantasia para poder de cara gostar ou não da pessoa, para poder reagir "adequadamente" à sua conversa, entre outras coisas.

Isso é uma coisa; outra é substituir o real por fantasias, mentiras.

Foto by Adrian Michael - Own workCC BY 2.5Link
Fazemos isso com tudo. Com a vida, por exemplo. Há quem acredite em um Criador e em uma história da Criação nem tão bem bolada assim. Muitos apostam suas fichas no Salvador. Sobre isso não sei muito, nem mesmo sei de quê fomos ou seremos salvos.

Sei que a vida de muita gente fica mais simples de ser levada por acreditar nessas narrações que podem ser que sejam apenas ficção (não usei a palavra mentira porque é feia).  Ou seja, é mentira que toda mentira seja ruim; é verdade que existem mentiras boas.

Disso ninguém escapa. Estamos o tempo todo acreditando em mentiras bondosas que suavizam a nossa vida. Principalmente mentiras que inventamos sobre nós mesmos.

Ah, claro! com exceção de você, querida leitora, e de você, querido leitor.

No cinema... com Ozon

Essa semana fomos ao cinema (coisa rara) e adoramos (coisa mais rara) o filme: Frantz, de François Ozon.



Não fui pela sinopse publicada. Todas são sempre tão inexpressivas que são um dos motivos de eu ir tão pouco ao cinema. Fui porque o Ozon é um dos meus cineastas contemporâneos prediletos (um dos três... ou quatro...).

Ozon aos 45. Agora tem 50.
foto by Georges Biard, CC BY-SA 3.0, Link

Talvez seus filmes não mereçam 5 estrelas, mas ele sim. Não, essa não é uma versão moderna do antigo dito "o filme é uma merda, mas o cineasta é gênio". Seus filmes são de BOM para MELHOR, porém ainda não dá para ele entrar no panteão dos deuses sagrados da sétima arte. Mas não perco um.

Esse é o 16º e penúltimo filme dele. Muitos não passaram aqui. Esse, por exemplo, está passando meio despercebido... O último dele é L'Amant Double que ainda não chegou aqui no Bananão, mesmo tendo causado frisson em Cannes.



Seu filme que mais me impactou foi Dentro da Casa (Dans la Maison - 2012). Imperdível. Como (ex-)professor, me identifiquei com o filme por conta da relação professor-aluno, complexa graças a excepcionalidade do aluno e o desejo do professor de lapidar esse (possível) diamante. Mas isso é assunto para um outro post. Prometo.



Frantz, o filme, de que se trata?

O que há em comum entre esses dois filmes é a confusão causada pela diferença (em um) ou semelhança (no outro) entre as histórias contadas pelos personagens e a realidade por eles vivida. Em Dentro da Casa, o assunto é a interferência da ficção na realidade. Já Frantz mostra a tendência que as pessoas (incluindo personagens e espectadores) têm de preferir a ficção à realidade.

Por isso subtitulei com "o elogio à mentira". Confesso que é meio exagerado esse subtítulo, mas destaca o que mais o filme me fez pensar: o quanto as pessoas preferem substituir a realidade por fantasias.

Não, o filme não é sobre religião. Há uma cena importante, não fundamental, onde um padre confessor generosamente propõe o caminho a ser seguido. Não pude deixar de pensar que, no fundo, padres vivem de vender uma grande fantasia, uma mentira total, que conforta e traz consolo ao disparate que é a vida.

Perdão foi feito pra gente pedir

Outro tema principal do filme é o perdão: a necessidade de se ser perdoado e de se perdoar. O cristianismo, pelo menos teoricamente, é o grande patrono desse refrão. Palmas aí. Sofremos quando não somos perdoado e nos libertamos de pesos quando perdoamos. O contrário, a manutenção do rancor, é danoso para os dois lados (ambos simples pecadores). O filme exemplifica isso, não apenas na animosidade que causou a guerra (primeira mundial), como o ódio ressentido do pós-guerra. A própria história contada no filme também mostra o efeito do perdão.

Soube outro dia de uma pessoa que anota tudo que de mal fazem a ela: "porque, se você esquece, acaba perdoando..." ! Eu não anoto e tenho péssima memória. Quando vejo, já perdoei.

Ok, menti. Eu perdoo, mas trago uma fichinha preta no coração com a lembrança do que senti.

Não é só de mentira e perdão que o filme trata. Posso enumerar aqui a condição feminina, o absurdo da guerra, o pacifismo e o nacionalismo. Tudo mostrado sem discursos didáticos, só situações plausíveis e imprescindíveis na história.

Em muitas resenhas, o luto é citado como um dos temas deste filme. Não dou esse destaque, prefiro destacar a culpa, justificada ou não, sempre envolvida no luto. O filme, aos meus olhos, me pareceu destacar mais a dor da culpa do que a dor da ausência. Para a culpa, nada como o perdão.


O assunto

A história é bem simples (pode deixar que não vou contar), seu desenrolar é previsível. Ozon, todavia, nos embaralha com pistas falsas e, assim, fica difícil parar de prestar atenção. É o tal suspense: suspensão dos nossos intelecto e instinto. O espectador está sempre pronto para preferir e aceitar as opções mentirosas.

Frantz é inspirado em uma peça de teatro francesa de 1931, que rendeu, em 1932, o filme americano Broken Lullaby, de Ernst Lubitsch. O filme americano foi proibido na Tchecoslováquia por ter conteúdo pacifista.

A trama se passa após a primeira guerra mundial. Em uma cidadezinha da Alemanha derrotada, os moradores ainda estão ressentidos com os franceses que nas batalhas mataram seus filhos. O túmulo do tal do Frantz, dado como morto na guerra, é cuidado por sua noiva Anna, que, desde a partida de Frantz, mora com os pais dele. Ela é a personagem principal.

A atriz que representa Anna é Paula Beer, alemã de 21 anos, com uma presença marcante na tela. Ganhou atriz revelação no Festival de Veneza por esse papel.


Há o encontro com Adrien, um francês que se apresenta como amigo de Frantz, transtornado pela morte deste. Os alemães da cidadezinha recebem-no muito mal. Adrien é interpretado por Pierre Niney, conhecido especialmente por ter feito Yves Saint-Laurent. O ator diz ter aprendido violino e alemão para fazer o filme do Ozon. Acreditei.

Pierre Niney as Yves Saint LaurentTHIBAULT GRABHERR/TIBO & ANOUCHKA/SND

A primeira parte do filme gira em torno da relação entre o francês e o alemão morto e o efeito na família de Frantz da lembrança do falecido causada pela presença de Adrien, o francês.

Na segunda parte, a ação muda para a França, onde se pode notar a destruição ocorrida no seu território, pois foi lá onde as batalhas foram travadas, e a mesma rivalidade e ressentimento que havia nos alemães.

O filme é em preto-e-branco com contraste diminuído. Há quem entenda que isso foi feito para criar o clima emocional dramático e nostálgico. Outros acham que assim é mais barato criar cenas de época (deslumbrantes e perfeitas, por sinal). A cor é usada em alguns momentos específicos.


É filme para se ver (e discutir). Sei que o verei de novo. Imagino que depois eu não vá querer alterar o que escrevi aqui. Até porque, se eu errei ou menti, foi para o bem do leitor. Perdoe-me.


sábado, 26 de setembro de 2015

A Cidadela, de Cronin. Por que todos devem ler esse livro?

por Luiz Carlos Monte

A ética é possível?

Essa foi certamente uma das leituras mais importantes que fiz em 2014. Surpresa total.

Quando adolescente, costumava ver esse livro na estante do meu pai, mas, com esse título e com o nome desse autor, não me despertou curiosidade. Imaginava um livro sisudo. Preferi desbravar a biblioteca paterna pelos Jorge Amado e Henry Miller. Ah, os hormônios...!

Com os livros eletrônicos, o título me reapareceu.

Detesto fazer escolhas, prefiro sempre que algum algoritmo faça-a para mim. No caso, ler A Cidadela porque era um ebook e tinha acabado de ler um livro de papel – seria o meu segundo livro lido no kobo – e, principalmente, porque na ordem alfabética de autores ele aparecia entre os primeiros: A. J. Cronin. O primeiro livro no kobo que eu li foi da Agatha Christie, como contei aqui. Eu tinha o texto em inglês "The Citadel", mas parti para a versão lusa mesmo.

The Citadel (wikimedia)


A surpresa foi ver como esse livro, escrito em 1937, era atualíssimo. Ao contar a história do médico Andrew Manson, inspirada em fatos vividos e testemunhados pelo autor, também médico, o tema da ética médica é “materializado” no enredo que acompanha a carreira do personagem. O leitor, acompanhando a vida do casal, é capturado pela plausibilidade das situações e de todos os personagens. Mais do que isso, pela realidade dos fatos que, com naturais variações, ocorrem até hoje. A questão ética não é exposta explicitamente. Os conflitos éticos estão lá, presentes nas muitas situações vividas com emoção.

Henfil e a ética médica


Para mim foi meio assustador ver que há uma certa inevitabilidade na desvirtuação do caráter de quem lida com a Medicina. Deve ser minha tendência pessimista, porque o livro até tem um desfecho moral. Mas, ao lembrar que muitas coisas mostradas acontecem de modo muito semelhante ainda hoje, a minha tendência acaba falando alto.

Daí, considerei A Cidadela uma leitura obrigatória. Principalmente para os médicos. Passei a achar estranho médicos que não leram esse livro. Não só para os médicos; obrigatória também para pacientes (nós, né?), para aprendermos a olhar os truques dos doutores e da indústria farmacêutica.

Um livro de impacto

Parece que a criação do sistema de saúde inglês (National Health Service), cerca de uma década (1948) após a publicação do livro, foi aprovada como consequência dos debates disparados pela obra. É crível, mas pouco do livro sugere explicitamente uma solução estatal / socialista, como é o NHS. É clara a precariedade do sistema que existia na época na qual a história foi passada e escrita.

Entendi muito mais a origem do viés socialista do NHS quando assisti o excelente documentário O Espírito de '45 do cineasta esquerdista Ken Loach. O filme descreve a campanha, ascensão e governo do Labour Party (trabalhistas) logo após a guerra, sob o mote "se nos unimos e nos esforçamos para vencer Hitler, por que não fazermos o mesmo para reconstruir o país?". Assistir o filme mexe até com o mais empedernido liberal. Deve-se depois assistir o filme Thatcher como antídoto. Rsss...


Logo em 1938, ano seguinte à publicação do romance, foi lançado um filme. Quase uma dezena de outras adaptações foram feitas para a tv e para o cinema, inclusive indiano.


A história

As resenhas do enredo costumam contar coisas demais sobre o livro. Não vou fazer isso.

Em 1921, o recém-formado Dr. Andrew Manson, escocês, 24 anos, vai trabalhar em uma pequena cidade do País de Gales dominada pela mineração de carvão. Seu trabalho associa clínica e pesquisa. A lida com os mais diversos tipos humanos, sejam pacientes, médicos, empresários ou burocratas é um ponto alto do livro. A sua luta diária, o sucesso da sua pesquisa e os benefícios que seguem, o progresso de status que acompanha seu crescimento na carreira, juntamente com a maturidade e as tentações próprias do ofício, transforma-o paulatinamente no oposto do que fora. Naturalmente o romance se encaminha então para crises pessoais que o levam a refletir sobre suas decisões anteriores.

Dito assim, não tem graça nenhuma, né?

Cartum de Waldez
em http://waldezcartuns.blogspot.com.br/2011/06/fale-com-seu-medico.html


Pelo caminho passamos por profissionais que se aproveitam de suas posições burocraticamente superiores para manter seus privilégios independentemente do mérito ou condição, pela indiferença à assistência aos lugares e indivíduos mais necessitados, pela charlatanice, pelos medicamentos inócuos, pela desinformação e incompetência, pela falta de saneamento, pelos que veem a verdade e são discriminados e até isolados socialmente.

Mas também vemos os que querem alterar a situação nem que tenham que fazer coisas não "legais"; vemos os que percebem a necessidade de empatia pelos seus pacientes; vemos os dedicados.

Muito mais há ainda: complôs para difamação; reconhecimento natural da competência pelos beneficiados por melhoras ou curas; e por aí vai. Tudo dentro de um romance.



O que mais me tocou foi ver a atração que o dinheiro e o status exercem quando se tem poder sobre a saúde das pessoas. Daí médicos que só se interessam pelo ganho social obtidos com pacientes ricos ou famosos. Daí também as redes de médicos que se recomendam mutuamente para alcançar a ascensão mútua. Daí os medicamentos e exames desnecessários, prescritos apenas para manter o cliente, frequentemente hipocondríacos, satisfeito. Daí a ostentação nos hábitos e consultórios. Daí a diferença de atendimento e atenção aos ricos e aos pobres. Daí os preços exorbitantes das consultas particulares. E muito mais. Tudo o que pode ser encontrado na mesma situação ainda hoje.

Charge de Sinovaldo


O Autor!

A. J. Cronin (wikipedia)


A primeira parte do livro é claramente baseada na experiência vivida pelo autor como médico em início de carreira. Todavia, sua vida como escritor me parece mais surpreendente. Escreveu muitos best-sellers que foram traduzidos para inúmeras línguas.

Archibald Joseph Cronin (1896-1981) escreveu mais de 30 livros, frequentemente adaptados para as telonas e telinhas. Pelo seu sucesso, há quem diga (NHS Scotland) que ele foi a J.K. Rowling do seu tempo.

Sua força está na narrativa, diálogos e caracterização de personagens interessantes. E também no realismo e na crítica social.

Seu romance The Stars Look Down, de 1935, inspirou o filme Billy Elliot e a canção (composta pelo Elton John) de abertura do musical faz homenagem ao livro.

Livro que inspirou o filme Billy Elliot


E a tal cidadela?

Ao final do livro era essa a pergunta que eu fazia.

Há duas menções a essa palavra no romance.

A primeira é Christine, que dialoga com ele sobre sucesso na vida no meio da segunda parte do livro:
- Não te lembras de que consideravas a vida como se fosse um assalto ao desconhecido, uma investida para a altura?... Era como se quisesses conquistar uma cidadela que não vias mas que tinhas a certeza de que estava lá, no alto...
A segunda menção é no último parágrafo:
E quando Manson partiu afinal, apressando-se para não perder o comboio, viu que as nuvens acumuladas no horizonte tomavam a forma de uma cidadela.
Haja memória para o leitor associar essa sentença à de muitas páginas anterior.



Antes de fazer a busca pela palavra no texto, fiquei intrigado por não ter entendido exatamente o último parágrafo. E resolvi olhar a versão que eu tinha do texto em inglês. Ahn? não há qualquer referência à palavra citadel, exceto no título! O que Manson vê no céu inglês são nuvens formando "the shape of battlements" - formas de muralhas!

O tradutor estava inspirado!

Um exame mais acurado mostrou que as duas versões não batiam. Parecem de escritores diferentes. A versão lusa apresenta muito mais detalhes, menciona muitas localidades que não aparecem na versão inglesa que eu tinha. Conclusão: meu ebook em inglês era uma adaptação e não o texto original.

Pode isso Arnaldo?

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Spandauer Vorstadt

por Luiz Carlos Monte

Em busca de uma nipo-hamburgueria

Último dia de Berlim, 19 de julho de 2015. Depois do museu do Pérgamo, ainda dava um tempo para mais um passeinho explorando a região de Spandauer Vorstadt, uma das regiões que merecia uma visita e não tivemos tempo de explorar suficientemenete, como contei no post Berlim, julho de 2015

Spandauer Vorstadt

Vorstadt quer dizer subúrbio, o que deve ter sido algum dia. Hoje, Spandauer Vorstadt faz parte do mitte (centro) de Berlim. Sua parte oriental chama-se Scheunenviertel, pedaço que nem fomos. Frequentemente os guias se referem a todo Spandauer Vorstadt como sendo Scheunenviertel, mas o certo é o contrário.

Spandauer Vorstadt e Scheunenviertel (clique para ampliar).

Nos dois dias apressados que passeamos aí, vimos e apreciamos: (clique no mapa acima para ver os locais)
  1. o memorial dos judeus (falo mais dele adiante neste post), 
  2. o parque Monbijou
  3. o Hackescher Markt com seus bares (fomos no Weihenstephaner), 
  4. o Hackescher Hof (uma interessantíssima e intrincada galeria); 

  5. passamos

  6. pelo Strandbar Mitte (bar na beira do rio), 
  7. pela Rosenhöfe (outra galeria), 
  8. pela Sophienkirche (igreja de Sta. Sofia) 
  9. e pelo antigo cemitério judeu (Alte Jüdische Friedhof).

  10. Parece que ainda há outras atrações nessa região:

  11. o Clärchens Ballhaus (antigo salão de dança), 
  12. o Kunst-Werke (KW. Arte contemporânea, com o Café Bravo, famoso pelos seus bolos), 
  13. o Heckmann Höfe (outra galeria, com jardim e uma loja de balas estilo antigo, a Bonbonmacherei), 
  14. caminhar pela rua Oranienburger 
  15. e a Nova Sinagoga (Neue Synagoge) que vimos de longe várias vezes. 

  16. Há também

  17. o teatro de revista Friedrichstadt-Palast
  18. o centro de arte Kunsthaus Tacheles
  19. o prédio dos correios (Postfuhramt)
  20.  e certamente outras coisitas.

Große Hamburger Straße

Após o museu, no nosso último dia de Berlim, como a necessidade de comer nos guiava, tomamos uma direção determinada, seguindo a Große Hamburger Straße, que imaginei ser a "rua do hambúrguer grande", rumo ao Shiso Burger.


Seguimos a rota que no mapa acima está desenhada com uma linha roxa, saindo do Pergamonmuseum. No início da Burgstraße, no James-Simon-Park, vimos umas pessoas em volta de uma escultura e fomos lá ver. É um grupo escultório muito estranho, em memória do educador Adolph Diesterweg. 


Memorial a Adolph Diesterweg (wikipedia)

Minha foto é só de um detalhe do grupo escultório.

No início dessa rua Große Hamburger, há o antigo cemitério judeu e, na calçada dele, o grupo escultório Jüdische Opfer des Faschismus (judeus vítimas do fascismo) de Will Lammert, à guisa de memorial.

Memorial Jüdische Opfer des Faschismus (judeus vítimas do fascismo)

Detalhe

O local foi cemitério judeu desde 1672, até ser destruído pelos nazistas.

Mais adiante na Große Hamburger Straße, vem a igreja de Santa Sofia. Vimos de longe porque nosso objetivo era outro...

Igreja de Santa Sofia (Sophienkirche)

Shiso Burger

Comer um hambúrguer sentado era uma boa pedida. A preocupação com a hora de partir, o cansaço da fila e da visita ao museu e a tal da fome serviram de estrela de belém. Alguém tinha recomendado e fomos ao Shiso Burger. Seguimos a Große Hamburger Straße até a Auguststraße, viramos à direita e no número 29 achamos o lugar.

É bem pequeno, mas dobra seu espaço com umas mesas na calçada. Sabíamos que é procuradíssimo e fica apinhado com longas horas de espera (tem gente que pede pra viagem e come em alguma praça). Mas ainda nem eram 18h do domingo. O nosso famoso truque de só ir a restaurante nos horários mortos funcionou mais uma vez. Logo-logo conseguimos um lugarzinho para dois, na parte de dentro, como queríamos, porém meio espremidos por um casal espaçoso ao lado.

Não precisa perguntar a senha do wi-fi !!
Tenho preguiça de escolher prato. Daí gostei do lugar só ter 9 opções, todas hambúrgueres: Uma de carne angus; outra, do mesmo acrescido de queijo; outras opções são de camarão, atum, salmão e duas veggies (de cogumelos ou de berinjela). Pedimos o cheeseburger de angus, carne de primeiríssima qualidade. Além da carne e do pão excepcionais, os sanduíches contêm ingredientes, alguns orientais, caprichosamente os tornando únicos. Não comerás algo semelhante em outro lugar. E se não tivéssemos pedido vinho e coca-cola, beberíamos refrescos e drinks também únicos.

Sim, o sanduíche não é grandão.

A maioria das mesas pedira batatas fritas torcidas, nós imitamos. Tínhamos visto isto em vários lugares, mas ainda não experimentado. É bem bom, mas esfria mais rápido.

Twisted potato.


Tudo vem servido em steamers de bambu, o que é bonitinho e dispensa a lavagem de pratos...

O lugar é simpático, provavelmente pelo público que o frequenta (ok, é hipster), já que o ambiente é bem simples e o atendimento lento e não carinhoso. A decoração usa uma madeira clara que, no balcão do caixa, lembra caixotes. Ou seja, rústico chique. A Adriana se assustou um pouco com o chão escorregadio de gordura. A comida estava bem gostosa (lembrando sempre que trouxéramos os principais temperos: fome, cansaço e boa vontade).

Era o último passeio da viagem. No início dela, evitávamos gastar notas para não ter que ficar sacando; pagávamos tudo no cartão (crédito ou débito). Talvez evitássemos o Shiso Burger, se tivéssemos por lá passado, pois só aceita dinheiro vivo.

Só dinheiro vivo. Antipático? Não com o Johnny avisando.

Shiso

Quem olhar o menu do restaurante, verá que o tal hambúrguer de atum é chamado de Shiso Burguer, o mesmo nome da casa, e contém uma folha de shiso como ingrediente. O próprio site descreve laconicamente que shiso "é uma folha". E parece que sem graça.

Folha de Shiso. Comumente serve como leito de wasabi ralado (wikipedia).


sábado, 5 de setembro de 2015

Alimento

por Fatima Flórido Cesar

Tem todo tipo de alimento. E tem todo tipo de fome. Às vezes é fácil, às vezes difícil acertar o alimento capaz de saciar aquela fome.

É que nem sede. Se você tem sede de água, só serve água e não tem palavra para descrever a delícia que é encontrar o que se anseia. Matar a sede.

Tem todo tipo de alimento. Isso também porque somos muitos no dentro da gente. Então, cada faceta do ser pede uma comida que traz promessa de saciedade. Também, se a gente é feita de um jeito tal, tem comida que nem entra.

Por exemplo, tem gente que não gosta de shopping. Eu já adoro: é uma faceta minha que me destrambelha. É vizinha de outras facetas tão diferentes: tipo gostar de escrever, ler Clarice Lispector, ser pescada por filme profundo.

Acho que sou múltipla. Todo mundo é: casa cheia de andares, portas e janelas. Mas acho que sou múltipla demais: tenho fome de shopping, de livro de suspense e de profundo. Ás vezes dá confusão: porque quem me conhece de shopping desconhece o lado do profundo. E vice-versa: causa espanto combinar poesia com consumismo.

Também gosto de livro de suspense, gosto que mora ao lado do amor pela poesia. Poesia é um alimento que me dá muita sustança e se estende para além dos livros: porque vai para música e pra filme. Música sacia os sentidos, pesca sonhos. Aliás, tem alimento que entra na categoria de sonho: sentir profundo, poesia, música, filme especial. Especial, porque nem todo filme faz sonhar. Tem outros tipos que também são alimento: comédia, por exemplo. Mas tem que gostar.

Ontem fui assistir uma comédia: era o que a vida me oferecia. Mas não achei graça e ainda saí de barriga vazia. Tinha fome de filme profundo.

Profundo. Profundo. Palavra batida, né? Mas não tem outra para fazer um laço com sonho. Ah! Tem a palavra encantamento. Isso! Tem fome de encantamento. E tem coisa melhor do que quando essa fome é saciada? A gente ganha um tipo de nutriente que torna a pessoa encantada.

Ah! Tenho outra fome também que para quem conhece meu lado de sonho, pode até estranhar. Adoro novela e já gostei de programa bobo. Dizem que novela é rasa, e deve ser mesmo, mas eu viajo, distraio e sempre tem paixão. Paixão me fisga e ai pode até ser paixão barata. Paixão é um alimento que me atrai desde a adolescência. E continua. Paixão também atrai muita gente: mora ao lado do encantamento.

Também cada conversa é um tipo de alimento. Tem conversa que dá alma ,tem conversa que distrai, tem conversa que suga e tem conversa que entedia. Bem, tem muitos outros tipos. Sou muito sensível à conversa. Conversa sobre roupa me anima. Mas tem conversa que me desperta um desejo de comunicação e dá vontade de não sair de perto. São conversas com pessoas que compartilham o essencial da vida. Mas tem conversa que me deixa murchinha e eu vou ficando distante, distante. Sem alma.

A pessoa tem fome de todo tipo de alimento: desde aqueles que fazem sonhar até aqueles que distraem a gente de um jeito simples, pode ser até bobo ou barato. A gente é muitos e a fome é grande. Quando fica fraquinha é sinal de tristeza, inanição de alma. Quero fome. Muita fome. Quero ficar cheia de vida: desde vestido bonito até verso que diz “a praia inicial da minha vida”(Sophia de Mello Breyner).

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A alegria do possível

por Fatima Flórido Cesar

Eu teço sonhos e deles eu preciso cuidar porque são minha entrada para a realidade.

Os sonhos preparam o fazer, o existir; inventam caminhos que ora se dão em terra firme, ora se dão em barcos desbravadores. Os sonhos nos conduzem para o mais além, porque nascemos com a vocação para desdobramentos em infinitas bifurcações.

Mas chega a hora de voltar para casa. 

Então, nem tanto ao mar, nem tanto à terra; todas as aderências são perigosas, mesmo que o projeto seja um viajar incessante. Pois a vontade de ir perde seu potencial de novidade, caso se transmute em furor e em esquecimento do lar. 

Esse deslocamento infindável nos engana: tem ares de saudável liberdade, de desapego. Entretanto, a aderência se apresenta pelo furor de movimento incessante: a adesão à vontade de partir. É no entre, no relativo, que podemos ficar confortáveis: a saúde e o bem viver se situam no trânsito e no possível. 

Porque o sonho é manso, ele garante o tal possível. Imaginarmo-nos de determinado modo, alto ou distante do que se é, é fruto das armadilhas das idealizações, estas distintas do sonho. Se, por um lado, o ideal do eu nos oferta o cultivo de ideais, por outro, nos aprisiona se queremos ser de tal jeito, de um modo que se distancia do simplesmente ser. 

Uma coisa é sermos idealistas, modo de ser sempre bem-vindo, outra coisa é a fixidez nas idealizações. Embate difícil este entre querer ser longe de sua própria natureza e sossegar no próprio modo de existir, naquilo que nos cabe. Nada fácil, pois para essa tarefa precisamos começar a nos desvencilhar dos mandatos parentais, daquilo que nossos pais sonharam em nós. 

Na verdade, um tanto do que se teceu enquanto fomos gestados e cuidados precisa permanecer. É nossa herança. Mas o que se quis demais, a missão que nos foi destinada: é nosso trabalho disso nos afastarmos até chegar ao possível, ao encontro das águas da originalidade com a tradição. 

Sossegar: das alegrias mais genuínas é essa que nos reconcilia com nosso tamanho, com o que nos cabe, sem abrir mão do mais além que nos é destinado. Mais um paradoxo, esse entrelaçar do voo com o pouso, com o andar, com o mancar: a alegria do possível.

Amor

por Fatima Flórido Cesar

Custei a entender o amor. Diferente da paixão, esta clara e fácil de ser definida. Letras não faltavam para dizer a paixão. Agora penso, nessa hora da vida, que essa transparência do entendimento da paixão se dava no que ela acontece no corpo. Ficava fácil assim compreendê-la: coração batendo, mãos úmidas, pernas trêmulas; corpo todo envolvido na acontecência do encontro.

Já o amor, se me pedissem: defina-o, não sabia. O amor-névoa, o amor-barato, a palavra cessava na sua existência que escapava das mãos e do entendimento. Até que a sabedoria dos anos vem trazendo devagar a compreensão: o amor faz parte do mundo invisível. Não precisa de corpo para sua aparição, surge atrás dos mistérios da vida. Não é que seja desencarnado; mas surge no corpo de outra forma: ou manso no decorrer das horas ou em seu avesso, quando a ameaça da perda traz com toda força a presença do corpo-assustado.

Dizem que primeiro vem a paixão, depois o amor: disso não sei falar. 
Acho simplório até, tão rasa explicação. Só penso que custei a entender por conta da condição de laços invisíveis, esses que tecem a trama do amor, diversa da intensidade, da possessão que constitui o rosto da paixão.

Só penso que custei a entender porque recusava definições fáceis, declarações banais; gestava em mim o sentido de algo que se tecia anos e anos, lado a lado, estreitos nós, invisíveis que sejam, mas que se apresentam na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Subi montanhas, escavei buracos, vislumbrei atrás de nuvens: ganhei força para adentrar esse mistério, passo a mão com leveza em seu rosto, prescruto-o se está bem e, sem ele saber, juro amor eterno. 

Talvez ele tenha entendido antes de mim, mas, sem nada dizer, também faça secretas juras de amor.