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segunda-feira, 12 de abril de 2021

O Filho Eterno (livro de Cristóvão Tezza)

Nada como um dia após o outro... 

Pra que chorar, pra que sofrer
/ Se há sempre um novo amor
/ Cada novo amanhecer

 (Vinicius & Baden)

Como ser gauche:

Há dois anos, mais ou menos, numa conversa de botequim sobre filmes que cada um tinha visto recentemente, confessei que não me atraíam filmes feitos para a gente sofrer. Um pouco daquele papo de "de amarga, basta a vida".

 

O meu incômodo, expliquei, dizia mais respeito a um público que só vê profundidade em um assunto se este falar de misérias extremas: físicas, psicológicas, econômicas, sociais... É uma discussão antiga, na qual a Comédia é encarada por muitos como um gênero menor. Importantes, para estes, são o Drama e a Tragédia.

Comédia e Drama

Também me revoltam filmes, livros, etc. quando partem para a apelação tratando desses assuntos dramáticos para ganhar facilmente esse tipo de público.

 


No meu tempo (ai, meus tempos!...), fui dos pouquíssimos que se recusaram a assistir o filme Love Story, primeiro porque era um blockbuster – palavra que ainda não existia na nossa língua –, mas, principalmente porque todos o adoravam por terem chorado muito. Não vi até hoje.

 

Acho que fui o único brasileiro da minha época que não leu Meu Pé de Laranja Lima. Mesmíssimos motivos. Também não li até hoje. Mas vi o filme recentemente na televisão. Chorei como um desgraçado. Adorei e recomendei a todo mundo. Vou ler o livro algum dia.


 

Surge o livro

 


Nessa conversa no botequim, meu amigo perguntou se eu tinha lido O Filho Eterno, do Cristóvão Tezza. Recomendou muito, dizendo que provavelmente eu iria gostar, apesar do assunto brabo. Pensei comigo: "ora, já tenho tantos livros pra ler...". E esqueci.

 

Meu amigo fez então a coisa certa, me deu o livro no meu aniversário. Onze meses depois, procurando um livro de menos páginas para ler na condução, peguei-o. No ponto do ônibus, comecei pela orelha e quase me arrependi da escolha. Era sobre uma criança com mongolismo!

 

Sabia que Cristóvão Tezza era um dos mais elogiados e premiados escritores brasileiros atuais. Um livro pequeno. Vou insistir! Fui fisgado, na orelha mesmo, pela palavra Curitiba.

 


Morei lá de 1965 a 1967, o que foi profundamente marcante. A cidade e a época. Agora aposentado, pensava em relembrar as experiências boas e ruins, conversando, pesquisando e fantasiando muito. Quem sabe escrevendo aqui sobre essas experiências?

 

E aí tenho dois assuntos a tratar, sobre o livro que eu li e sobre as consequências das lembranças.

 

 

Assunto 1

O livro O Filho Eterno

 

Sim, gostei bastante do livro. Não posso recomendá-lo porque tenho por princípio não recomendar nada. Espero que os meus comentários a seguir, sobre o que gostei no livro, motivem quem, se identificando com o meu gosto, deseje conferir o prazer da leitura dele.

 

Não vou resenhar a "história" contada no livro, pois grande parte desse prazer foi tentar antecipá-la em cada parágrafo, frustar-se cada vez que o suspense era mantido e se surpreender com a crueza da realidade dos desfechos de cada situação e com a honestidade envolvida no ato de narrar esses desfechos. Por isso, recomendo (pronto, quebrei a promessa!) que não se leia a orelha do livro, nem resenhas da história.

 

Muitos, na internet, se dedicam a falar sobre o estilo do livro, as técnicas literárias empregadas na escrita e blá-blá-blá. Não tenho capacidade para tal e isso não é o que me motivou à leitura. Apenas digo que o escritor caprichosamente me envolveu na travessia das palavras, parágrafos e capítulos, do início ao fim do livro.

 

É meio difícil fugir a algumas observações sobre técnicas e estilo que são sempre citados nesses textos e vídeos sobre o livro. A primeira delas é: trata-se de uma ficção ou memória autobiográfica? O próprio autor apresenta-a como ficção, mas aceita ser também uma memória. Li-o fundamentalmente como ficção, o que me deu mais prazer na leitura. Em vários momentos a curiosidade fez-me buscar no google alguns acontecimentos narrados e perceber que eram reais, o que aumentava a graça da leitura como ficção e não como uma simples narrativa fiel a memória (existe isso?).

 

O que todos citam é que a chave disso é o livro ser escrito na terceira pessoa. Numa memória autobiográfica, o mais simples seria o narrador usar a primeira pessoa - "eu"- para que o leitor confunda o protagonista com o autor da obra. Não é isso o que o autor, Cristóvão Tezza, faz. O protagonista, que é um escritor, sequer tem seu nome mencionado, é sempre referido como "ele" ou "o pai". Isso é mais importante porque enfatiza a distinção entre a pessoa "o pai", descrita em cada momento do livro, e a pessoa "o autor" (Cristóvão Tezza) após ter passado pela formação que a própria história conta. 

 "...tem a viva sensação de que [o autor] é escrito pelo que escreve ..." 

(C. Tezza)
acrescentei o [o autor]

A escrita na terceira pessoa também facilita a empatia do leitor com o personagem. A todo momento o leitor se pergunta "se isso fosse comigo?" e se sente capaz de pensar exatamente como "o pai". 

Pode-se perceber que as próprias características da escrita do livro são fruto da história contada, ou seja, os acontecimentos como que explicam, pela vivência, os tais estilo e técnicas. Por exemplo, a natural arrogância juvenil do "pai" contrasta com a humilde sinceridade da narração.

"Nada do que não foi poderia ter sido"
 ("o pai")

A tal empatia que o leitor (eu, no caso) acaba tendo com o personagem foi o que realmente me cativou desde o início na leitura. Graças à honestidade e coragem da descrição que é feita do "pai", seus pensamentos, suas ações e atribulações, o leitor é desafiado a ser também honesto e corajoso. Talvez nem todos os leitores consigam ter prazer em ter que abandonar seus próprios pensamentos hipócritas, ou admitir a sua crueldade inerente própria de quem está fora do drama real específico, para aceitar um personagem não hipócrita diante de questões dramáticas reais. Na ficção essa distância é mais assimilável. Esses leitores podem, durante a leitura, ficar desejando a tradicional "virada e superação" na história. Podem até achar que o final da história seguiu esses cânones do cinema americano. E até gostar do livro por isso. Mas não terão sentido o prazer de se identificar com a humanidade do protagonista.

 
Match Point (Woody Allen) - o autor decide "viro ou não viro"

Um outro ponto, que particularmente me é caro e que me fez aproveitar ainda mais o livro, foi o  entremear na história das dificuldades, conflitos, expectativas, desesperos e desesperanças que um artista frequentemente passa antes dele conseguir uma (eventual e rara) realização verdadeira. Isso não é mostrado através de uma enumeração ou descrição desses problemas; sim pelo surgimento de situações reais, inevitáveis muitas vezes por conta do ambiente ou da psicologia do infeliz abençoado com a tal "alma de artista". O meu sentimento relativo às agruras dos artistas, despertado na leitura de O Filho Eterno, foi semelhante ao que tive lendo a primeira metade de Servidão Humana (Of Human Bondage) de Somerset Maugham. Espero ter tempo de um dia, ou muitas vezes, falar aqui desse assunto e também desse outro livro que adorei.

 

O escritor Cristóvão Tezza

 


Aqui só me cabe dizer que é considerado como um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, superpremiado e publicado aqui e lá fora. Para conhecer mais detalhes sobre ele, não existe melhor maneira do que ler O Filho Eterno.

Também vale ir à página dele e à wikipedia.

Assunto 2

Minhas lembranças curitibanas

 

Como eu disse, a menção a Curitiba logo na orelha do livro atiçou minha curiosidade pelo livro.


Morei lá de 1965 a 1967, de 12 aos 15 anos, e me vejo sempre lembrando, conversando e fantasiando muito sobre esse período da minha vida.

 

Na leitura de O Filho Eterno, o que disparou a minha fantasia foi, logo na página 74, ser dito que "o pai" escritor, que tem as mesmas marcas históricas do autor Cristóvão Tezza, ter nascido em 1952. Ora, eu também! Teríamos mais ou menos a mesma idade. Inclusive na época em que eu morava em Curitiba, ora! 😏

 

Para conferir se o ano de nascimento do "pai" de O Filho Eterno era o mesmo ano do Cristóvão Tezza, pesquisei na wikipedia, onde diz que o autor nasceu em 21 de agosto de 1952. Que nem que eu !!! Nascemos no mesmo dia !!!

 

Em 65, Curitiba tinha uma população estimada de 500.000 habitantes. Mas para mim era como uma aldeia grande. As ruas calçadas, por exemplo, iam do Alto da Rua XV até o Batel, além desses extremos as ruas eram de barro. Frequentemente eu caminhava toda essa extensão que ia do colégio no Batel até a casa do meu colega, exatamente no tal Alto da Rua XV. Uma hora e pouco de caminhada, 5,5 km. Menos do que andar do Posto 1 no Leme ao Posto 10 em Ipanema. Ou seja, era uma cidade pequena.

 

Não sei, mas não devia haver muitos ginásios nessa aldeia. Pelo Anuário Estatístico Brasileiro do IBGE vi que só havia 20 ginásios estaduais em todo o município. Me veio a ideia de que, por termos (exatamente) a mesma idade, haveria a possibilidade de termos sido colegas de escola. Para mim é uma relembrança quase impossível. Eu só fiz dois amigos nesses três anos, ambos cariocas como eu, de passagem pela cidade. Mais do que isso só lembro de pouquíssimos colegas e de nenhum nome.

 

Do pouco que me lembro da época, um episódio me marcou a ponto de frequentemente eu tentar reconstituir mentalmente os detalhes. No intervalo de recreio no ginásio, tinha um colega que não ia para o pátio. Eu ia, mas preferiria não ir. O pátio era dividido: num lado ficavam os meninos e no outro as meninas. Não era permitido contato entre gêneros distintos. Desanimador. Eu, curioso para saber se o colega, que assim como eu não se socializava, tinha o mesmo motivo, cheguei a ele e perguntei que livro ele estava lendo, já me intrigando pela cor amarela da capa me ser familiar. A resposta dele, com ar de "por que esse chato está querendo me incomodar?", foi algo como "sobre educação na Inglaterra" (conto como costumo me lembrar e não como exatamente foi). Reconheci o livro e perguntei: Summerhill?

 


Meu pai tinha comprado o livro e eu já lera boa parte dele. Os olhos do meu colega se arregalaram e o resto da conversa eu não lembro mesmo, até porque já inventei dezenas de desfechos. Não sei se algum aconteceu. O nome do colega era Jairo. Jairo?

 

Acontece que na página 168 de O Filho Eterno, está escrito que "o pai", então com 16 anos, leu Summerhill. Com 16 anos, em 1968, eu já estava de volta no Rio. Mas... e se o autor se confundiu na data de uma memória tão distante que eu quase não me lembro de nada? Achei meio difícil imaginar que na Curitiba de 1967 três adolescentes leram Summerhill. Pela visão que eu tinha daquela aldeia, isso era muito improvável. Mas não impossível. Jairo seria o Cristóvão?

 

Sempre converso, nas reuniões de família ou com os amigos, sobre os livros que estou lendo ou acabei de ler. Contando esses detalhes acima, todos sempre diziam eufóricos "escreve para ele e pergunta".

 

Foi o que fiz, escrevi um email a pretexto de desejar feliz aniversário atrasado e aguardar retribuição por sermos gêmeos nesse aspecto, contando todas essas minhas especulações sobre possíveis coincidências.

 

E ele me respondeu. Não podia ser mais amável e generoso. Contou em detalhe as datas e colégios onde estudara. De fato ele estudou no mesmo colégio que eu, mas em épocas diferentes. Ele no primário e eu no ginásio.

 

Somando todos os detalhes, concluí que ele não era o Jairo.

 

Achei a história das coincidências reais muito legal, porém a história com as coincidências prováveis que imaginei mais legal ainda. Como dizem os italianos

 

Se non è vero, è ben trovato.

 


Ou em português 

Se a versão é melhor que os fatos, que se danem os fatos.


.O inesgotável poder da mentira se sustenta sobre o invencível desejo de aceitá-la como verdade

(C. Tezza)

sábado, 22 de julho de 2017

Frantz (de François Ozon) e o elogio à mentira

O mundo tem dois tipos de pessoas: os que confessam que mentiram e os que mentem.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
          Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. 
         (uma confissão de) Fernando Pessoa

Mentir, palavra feia, nada mais é do que criar uma ficção e fingir que ela é a realidade. Já ficção é palavra bonita.

Para criar uma ficção é preciso imaginação, fantasia. O futuro, por exemplo, é uma ficção. Apenas podemos imaginá-lo e tentar acreditar nessa mentira até que ela se torne real ...ou não.

Nelson Rodrigues: "sem sorte você não atravessa a rua""
Parafraseando Nelson Rodrigues: sem fantasia você não atravessa sequer uma rua! É preciso imaginar, antes de atravessar, que vai-se ter sucesso.

Eu, por exemplo, fico o tempo todo inventando histórias. Adorava fazer viagens longas de ônibus (para o Fundão, por exemplo) passando um tempão ficcionando. Nem sei quantas vezes fui presidente, técnico de futebol e namorei alguma menina de quem nunca tive coragem de me aproximar.

Todos inventam histórias, até quando não querem. Ao ser apresentado a uma pessoa, cria-se toda uma fantasia sobre ela, mesmo inconscientemente. Essa fantasia vai se aprimorando, se corrigindo ou criando novos enganos à medida que mais informação sobre a pessoa surge. E acreditamos nessa nossa fantasia para poder de cara gostar ou não da pessoa, para poder reagir "adequadamente" à sua conversa, entre outras coisas.

Isso é uma coisa; outra é substituir o real por fantasias, mentiras.

Foto by Adrian Michael - Own workCC BY 2.5Link
Fazemos isso com tudo. Com a vida, por exemplo. Há quem acredite em um Criador e em uma história da Criação nem tão bem bolada assim. Muitos apostam suas fichas no Salvador. Sobre isso não sei muito, nem mesmo sei de quê fomos ou seremos salvos.

Sei que a vida de muita gente fica mais simples de ser levada por acreditar nessas narrações que podem ser que sejam apenas ficção (não usei a palavra mentira porque é feia).  Ou seja, é mentira que toda mentira seja ruim; é verdade que existem mentiras boas.

Disso ninguém escapa. Estamos o tempo todo acreditando em mentiras bondosas que suavizam a nossa vida. Principalmente mentiras que inventamos sobre nós mesmos.

Ah, claro! com exceção de você, querida leitora, e de você, querido leitor.

No cinema... com Ozon

Essa semana fomos ao cinema (coisa rara) e adoramos (coisa mais rara) o filme: Frantz, de François Ozon.



Não fui pela sinopse publicada. Todas são sempre tão inexpressivas que são um dos motivos de eu ir tão pouco ao cinema. Fui porque o Ozon é um dos meus cineastas contemporâneos prediletos (um dos três... ou quatro...).

Ozon aos 45. Agora tem 50.
foto by Georges Biard, CC BY-SA 3.0, Link

Talvez seus filmes não mereçam 5 estrelas, mas ele sim. Não, essa não é uma versão moderna do antigo dito "o filme é uma merda, mas o cineasta é gênio". Seus filmes são de BOM para MELHOR, porém ainda não dá para ele entrar no panteão dos deuses sagrados da sétima arte. Mas não perco um.

Esse é o 16º e penúltimo filme dele. Muitos não passaram aqui. Esse, por exemplo, está passando meio despercebido... O último dele é L'Amant Double que ainda não chegou aqui no Bananão, mesmo tendo causado frisson em Cannes.



Seu filme que mais me impactou foi Dentro da Casa (Dans la Maison - 2012). Imperdível. Como (ex-)professor, me identifiquei com o filme por conta da relação professor-aluno, complexa graças a excepcionalidade do aluno e o desejo do professor de lapidar esse (possível) diamante. Mas isso é assunto para um outro post. Prometo.



Frantz, o filme, de que se trata?

O que há em comum entre esses dois filmes é a confusão causada pela diferença (em um) ou semelhança (no outro) entre as histórias contadas pelos personagens e a realidade por eles vivida. Em Dentro da Casa, o assunto é a interferência da ficção na realidade. Já Frantz mostra a tendência que as pessoas (incluindo personagens e espectadores) têm de preferir a ficção à realidade.

Por isso subtitulei com "o elogio à mentira". Confesso que é meio exagerado esse subtítulo, mas destaca o que mais o filme me fez pensar: o quanto as pessoas preferem substituir a realidade por fantasias.

Não, o filme não é sobre religião. Há uma cena importante, não fundamental, onde um padre confessor generosamente propõe o caminho a ser seguido. Não pude deixar de pensar que, no fundo, padres vivem de vender uma grande fantasia, uma mentira total, que conforta e traz consolo ao disparate que é a vida.

Perdão foi feito pra gente pedir

Outro tema principal do filme é o perdão: a necessidade de se ser perdoado e de se perdoar. O cristianismo, pelo menos teoricamente, é o grande patrono desse refrão. Palmas aí. Sofremos quando não somos perdoado e nos libertamos de pesos quando perdoamos. O contrário, a manutenção do rancor, é danoso para os dois lados (ambos simples pecadores). O filme exemplifica isso, não apenas na animosidade que causou a guerra (primeira mundial), como o ódio ressentido do pós-guerra. A própria história contada no filme também mostra o efeito do perdão.

Soube outro dia de uma pessoa que anota tudo que de mal fazem a ela: "porque, se você esquece, acaba perdoando..." ! Eu não anoto e tenho péssima memória. Quando vejo, já perdoei.

Ok, menti. Eu perdoo, mas trago uma fichinha preta no coração com a lembrança do que senti.

Não é só de mentira e perdão que o filme trata. Posso enumerar aqui a condição feminina, o absurdo da guerra, o pacifismo e o nacionalismo. Tudo mostrado sem discursos didáticos, só situações plausíveis e imprescindíveis na história.

Em muitas resenhas, o luto é citado como um dos temas deste filme. Não dou esse destaque, prefiro destacar a culpa, justificada ou não, sempre envolvida no luto. O filme, aos meus olhos, me pareceu destacar mais a dor da culpa do que a dor da ausência. Para a culpa, nada como o perdão.


O assunto

A história é bem simples (pode deixar que não vou contar), seu desenrolar é previsível. Ozon, todavia, nos embaralha com pistas falsas e, assim, fica difícil parar de prestar atenção. É o tal suspense: suspensão dos nossos intelecto e instinto. O espectador está sempre pronto para preferir e aceitar as opções mentirosas.

Frantz é inspirado em uma peça de teatro francesa de 1931, que rendeu, em 1932, o filme americano Broken Lullaby, de Ernst Lubitsch. O filme americano foi proibido na Tchecoslováquia por ter conteúdo pacifista.

A trama se passa após a primeira guerra mundial. Em uma cidadezinha da Alemanha derrotada, os moradores ainda estão ressentidos com os franceses que nas batalhas mataram seus filhos. O túmulo do tal do Frantz, dado como morto na guerra, é cuidado por sua noiva Anna, que, desde a partida de Frantz, mora com os pais dele. Ela é a personagem principal.

A atriz que representa Anna é Paula Beer, alemã de 21 anos, com uma presença marcante na tela. Ganhou atriz revelação no Festival de Veneza por esse papel.


Há o encontro com Adrien, um francês que se apresenta como amigo de Frantz, transtornado pela morte deste. Os alemães da cidadezinha recebem-no muito mal. Adrien é interpretado por Pierre Niney, conhecido especialmente por ter feito Yves Saint-Laurent. O ator diz ter aprendido violino e alemão para fazer o filme do Ozon. Acreditei.

Pierre Niney as Yves Saint LaurentTHIBAULT GRABHERR/TIBO & ANOUCHKA/SND

A primeira parte do filme gira em torno da relação entre o francês e o alemão morto e o efeito na família de Frantz da lembrança do falecido causada pela presença de Adrien, o francês.

Na segunda parte, a ação muda para a França, onde se pode notar a destruição ocorrida no seu território, pois foi lá onde as batalhas foram travadas, e a mesma rivalidade e ressentimento que havia nos alemães.

O filme é em preto-e-branco com contraste diminuído. Há quem entenda que isso foi feito para criar o clima emocional dramático e nostálgico. Outros acham que assim é mais barato criar cenas de época (deslumbrantes e perfeitas, por sinal). A cor é usada em alguns momentos específicos.


É filme para se ver (e discutir). Sei que o verei de novo. Imagino que depois eu não vá querer alterar o que escrevi aqui. Até porque, se eu errei ou menti, foi para o bem do leitor. Perdoe-me.