Páginas

Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de abril de 2021

O Filho Eterno (livro de Cristóvão Tezza)

Nada como um dia após o outro... 

Pra que chorar, pra que sofrer
/ Se há sempre um novo amor
/ Cada novo amanhecer

 (Vinicius & Baden)

Como ser gauche:

Há dois anos, mais ou menos, numa conversa de botequim sobre filmes que cada um tinha visto recentemente, confessei que não me atraíam filmes feitos para a gente sofrer. Um pouco daquele papo de "de amarga, basta a vida".

 

O meu incômodo, expliquei, dizia mais respeito a um público que só vê profundidade em um assunto se este falar de misérias extremas: físicas, psicológicas, econômicas, sociais... É uma discussão antiga, na qual a Comédia é encarada por muitos como um gênero menor. Importantes, para estes, são o Drama e a Tragédia.

Comédia e Drama

Também me revoltam filmes, livros, etc. quando partem para a apelação tratando desses assuntos dramáticos para ganhar facilmente esse tipo de público.

 


No meu tempo (ai, meus tempos!...), fui dos pouquíssimos que se recusaram a assistir o filme Love Story, primeiro porque era um blockbuster – palavra que ainda não existia na nossa língua –, mas, principalmente porque todos o adoravam por terem chorado muito. Não vi até hoje.

 

Acho que fui o único brasileiro da minha época que não leu Meu Pé de Laranja Lima. Mesmíssimos motivos. Também não li até hoje. Mas vi o filme recentemente na televisão. Chorei como um desgraçado. Adorei e recomendei a todo mundo. Vou ler o livro algum dia.


 

Surge o livro

 


Nessa conversa no botequim, meu amigo perguntou se eu tinha lido O Filho Eterno, do Cristóvão Tezza. Recomendou muito, dizendo que provavelmente eu iria gostar, apesar do assunto brabo. Pensei comigo: "ora, já tenho tantos livros pra ler...". E esqueci.

 

Meu amigo fez então a coisa certa, me deu o livro no meu aniversário. Onze meses depois, procurando um livro de menos páginas para ler na condução, peguei-o. No ponto do ônibus, comecei pela orelha e quase me arrependi da escolha. Era sobre uma criança com mongolismo!

 

Sabia que Cristóvão Tezza era um dos mais elogiados e premiados escritores brasileiros atuais. Um livro pequeno. Vou insistir! Fui fisgado, na orelha mesmo, pela palavra Curitiba.

 


Morei lá de 1965 a 1967, o que foi profundamente marcante. A cidade e a época. Agora aposentado, pensava em relembrar as experiências boas e ruins, conversando, pesquisando e fantasiando muito. Quem sabe escrevendo aqui sobre essas experiências?

 

E aí tenho dois assuntos a tratar, sobre o livro que eu li e sobre as consequências das lembranças.

 

 

Assunto 1

O livro O Filho Eterno

 

Sim, gostei bastante do livro. Não posso recomendá-lo porque tenho por princípio não recomendar nada. Espero que os meus comentários a seguir, sobre o que gostei no livro, motivem quem, se identificando com o meu gosto, deseje conferir o prazer da leitura dele.

 

Não vou resenhar a "história" contada no livro, pois grande parte desse prazer foi tentar antecipá-la em cada parágrafo, frustar-se cada vez que o suspense era mantido e se surpreender com a crueza da realidade dos desfechos de cada situação e com a honestidade envolvida no ato de narrar esses desfechos. Por isso, recomendo (pronto, quebrei a promessa!) que não se leia a orelha do livro, nem resenhas da história.

 

Muitos, na internet, se dedicam a falar sobre o estilo do livro, as técnicas literárias empregadas na escrita e blá-blá-blá. Não tenho capacidade para tal e isso não é o que me motivou à leitura. Apenas digo que o escritor caprichosamente me envolveu na travessia das palavras, parágrafos e capítulos, do início ao fim do livro.

 

É meio difícil fugir a algumas observações sobre técnicas e estilo que são sempre citados nesses textos e vídeos sobre o livro. A primeira delas é: trata-se de uma ficção ou memória autobiográfica? O próprio autor apresenta-a como ficção, mas aceita ser também uma memória. Li-o fundamentalmente como ficção, o que me deu mais prazer na leitura. Em vários momentos a curiosidade fez-me buscar no google alguns acontecimentos narrados e perceber que eram reais, o que aumentava a graça da leitura como ficção e não como uma simples narrativa fiel a memória (existe isso?).

 

O que todos citam é que a chave disso é o livro ser escrito na terceira pessoa. Numa memória autobiográfica, o mais simples seria o narrador usar a primeira pessoa - "eu"- para que o leitor confunda o protagonista com o autor da obra. Não é isso o que o autor, Cristóvão Tezza, faz. O protagonista, que é um escritor, sequer tem seu nome mencionado, é sempre referido como "ele" ou "o pai". Isso é mais importante porque enfatiza a distinção entre a pessoa "o pai", descrita em cada momento do livro, e a pessoa "o autor" (Cristóvão Tezza) após ter passado pela formação que a própria história conta. 

 "...tem a viva sensação de que [o autor] é escrito pelo que escreve ..." 

(C. Tezza)
acrescentei o [o autor]

A escrita na terceira pessoa também facilita a empatia do leitor com o personagem. A todo momento o leitor se pergunta "se isso fosse comigo?" e se sente capaz de pensar exatamente como "o pai". 

Pode-se perceber que as próprias características da escrita do livro são fruto da história contada, ou seja, os acontecimentos como que explicam, pela vivência, os tais estilo e técnicas. Por exemplo, a natural arrogância juvenil do "pai" contrasta com a humilde sinceridade da narração.

"Nada do que não foi poderia ter sido"
 ("o pai")

A tal empatia que o leitor (eu, no caso) acaba tendo com o personagem foi o que realmente me cativou desde o início na leitura. Graças à honestidade e coragem da descrição que é feita do "pai", seus pensamentos, suas ações e atribulações, o leitor é desafiado a ser também honesto e corajoso. Talvez nem todos os leitores consigam ter prazer em ter que abandonar seus próprios pensamentos hipócritas, ou admitir a sua crueldade inerente própria de quem está fora do drama real específico, para aceitar um personagem não hipócrita diante de questões dramáticas reais. Na ficção essa distância é mais assimilável. Esses leitores podem, durante a leitura, ficar desejando a tradicional "virada e superação" na história. Podem até achar que o final da história seguiu esses cânones do cinema americano. E até gostar do livro por isso. Mas não terão sentido o prazer de se identificar com a humanidade do protagonista.

 
Match Point (Woody Allen) - o autor decide "viro ou não viro"

Um outro ponto, que particularmente me é caro e que me fez aproveitar ainda mais o livro, foi o  entremear na história das dificuldades, conflitos, expectativas, desesperos e desesperanças que um artista frequentemente passa antes dele conseguir uma (eventual e rara) realização verdadeira. Isso não é mostrado através de uma enumeração ou descrição desses problemas; sim pelo surgimento de situações reais, inevitáveis muitas vezes por conta do ambiente ou da psicologia do infeliz abençoado com a tal "alma de artista". O meu sentimento relativo às agruras dos artistas, despertado na leitura de O Filho Eterno, foi semelhante ao que tive lendo a primeira metade de Servidão Humana (Of Human Bondage) de Somerset Maugham. Espero ter tempo de um dia, ou muitas vezes, falar aqui desse assunto e também desse outro livro que adorei.

 

O escritor Cristóvão Tezza

 


Aqui só me cabe dizer que é considerado como um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, superpremiado e publicado aqui e lá fora. Para conhecer mais detalhes sobre ele, não existe melhor maneira do que ler O Filho Eterno.

Também vale ir à página dele e à wikipedia.

Assunto 2

Minhas lembranças curitibanas

 

Como eu disse, a menção a Curitiba logo na orelha do livro atiçou minha curiosidade pelo livro.


Morei lá de 1965 a 1967, de 12 aos 15 anos, e me vejo sempre lembrando, conversando e fantasiando muito sobre esse período da minha vida.

 

Na leitura de O Filho Eterno, o que disparou a minha fantasia foi, logo na página 74, ser dito que "o pai" escritor, que tem as mesmas marcas históricas do autor Cristóvão Tezza, ter nascido em 1952. Ora, eu também! Teríamos mais ou menos a mesma idade. Inclusive na época em que eu morava em Curitiba, ora! 😏

 

Para conferir se o ano de nascimento do "pai" de O Filho Eterno era o mesmo ano do Cristóvão Tezza, pesquisei na wikipedia, onde diz que o autor nasceu em 21 de agosto de 1952. Que nem que eu !!! Nascemos no mesmo dia !!!

 

Em 65, Curitiba tinha uma população estimada de 500.000 habitantes. Mas para mim era como uma aldeia grande. As ruas calçadas, por exemplo, iam do Alto da Rua XV até o Batel, além desses extremos as ruas eram de barro. Frequentemente eu caminhava toda essa extensão que ia do colégio no Batel até a casa do meu colega, exatamente no tal Alto da Rua XV. Uma hora e pouco de caminhada, 5,5 km. Menos do que andar do Posto 1 no Leme ao Posto 10 em Ipanema. Ou seja, era uma cidade pequena.

 

Não sei, mas não devia haver muitos ginásios nessa aldeia. Pelo Anuário Estatístico Brasileiro do IBGE vi que só havia 20 ginásios estaduais em todo o município. Me veio a ideia de que, por termos (exatamente) a mesma idade, haveria a possibilidade de termos sido colegas de escola. Para mim é uma relembrança quase impossível. Eu só fiz dois amigos nesses três anos, ambos cariocas como eu, de passagem pela cidade. Mais do que isso só lembro de pouquíssimos colegas e de nenhum nome.

 

Do pouco que me lembro da época, um episódio me marcou a ponto de frequentemente eu tentar reconstituir mentalmente os detalhes. No intervalo de recreio no ginásio, tinha um colega que não ia para o pátio. Eu ia, mas preferiria não ir. O pátio era dividido: num lado ficavam os meninos e no outro as meninas. Não era permitido contato entre gêneros distintos. Desanimador. Eu, curioso para saber se o colega, que assim como eu não se socializava, tinha o mesmo motivo, cheguei a ele e perguntei que livro ele estava lendo, já me intrigando pela cor amarela da capa me ser familiar. A resposta dele, com ar de "por que esse chato está querendo me incomodar?", foi algo como "sobre educação na Inglaterra" (conto como costumo me lembrar e não como exatamente foi). Reconheci o livro e perguntei: Summerhill?

 


Meu pai tinha comprado o livro e eu já lera boa parte dele. Os olhos do meu colega se arregalaram e o resto da conversa eu não lembro mesmo, até porque já inventei dezenas de desfechos. Não sei se algum aconteceu. O nome do colega era Jairo. Jairo?

 

Acontece que na página 168 de O Filho Eterno, está escrito que "o pai", então com 16 anos, leu Summerhill. Com 16 anos, em 1968, eu já estava de volta no Rio. Mas... e se o autor se confundiu na data de uma memória tão distante que eu quase não me lembro de nada? Achei meio difícil imaginar que na Curitiba de 1967 três adolescentes leram Summerhill. Pela visão que eu tinha daquela aldeia, isso era muito improvável. Mas não impossível. Jairo seria o Cristóvão?

 

Sempre converso, nas reuniões de família ou com os amigos, sobre os livros que estou lendo ou acabei de ler. Contando esses detalhes acima, todos sempre diziam eufóricos "escreve para ele e pergunta".

 

Foi o que fiz, escrevi um email a pretexto de desejar feliz aniversário atrasado e aguardar retribuição por sermos gêmeos nesse aspecto, contando todas essas minhas especulações sobre possíveis coincidências.

 

E ele me respondeu. Não podia ser mais amável e generoso. Contou em detalhe as datas e colégios onde estudara. De fato ele estudou no mesmo colégio que eu, mas em épocas diferentes. Ele no primário e eu no ginásio.

 

Somando todos os detalhes, concluí que ele não era o Jairo.

 

Achei a história das coincidências reais muito legal, porém a história com as coincidências prováveis que imaginei mais legal ainda. Como dizem os italianos

 

Se non è vero, è ben trovato.

 


Ou em português 

Se a versão é melhor que os fatos, que se danem os fatos.


.O inesgotável poder da mentira se sustenta sobre o invencível desejo de aceitá-la como verdade

(C. Tezza)

sábado, 26 de setembro de 2015

A Cidadela, de Cronin. Por que todos devem ler esse livro?

por Luiz Carlos Monte

A ética é possível?

Essa foi certamente uma das leituras mais importantes que fiz em 2014. Surpresa total.

Quando adolescente, costumava ver esse livro na estante do meu pai, mas, com esse título e com o nome desse autor, não me despertou curiosidade. Imaginava um livro sisudo. Preferi desbravar a biblioteca paterna pelos Jorge Amado e Henry Miller. Ah, os hormônios...!

Com os livros eletrônicos, o título me reapareceu.

Detesto fazer escolhas, prefiro sempre que algum algoritmo faça-a para mim. No caso, ler A Cidadela porque era um ebook e tinha acabado de ler um livro de papel – seria o meu segundo livro lido no kobo – e, principalmente, porque na ordem alfabética de autores ele aparecia entre os primeiros: A. J. Cronin. O primeiro livro no kobo que eu li foi da Agatha Christie, como contei aqui. Eu tinha o texto em inglês "The Citadel", mas parti para a versão lusa mesmo.

The Citadel (wikimedia)


A surpresa foi ver como esse livro, escrito em 1937, era atualíssimo. Ao contar a história do médico Andrew Manson, inspirada em fatos vividos e testemunhados pelo autor, também médico, o tema da ética médica é “materializado” no enredo que acompanha a carreira do personagem. O leitor, acompanhando a vida do casal, é capturado pela plausibilidade das situações e de todos os personagens. Mais do que isso, pela realidade dos fatos que, com naturais variações, ocorrem até hoje. A questão ética não é exposta explicitamente. Os conflitos éticos estão lá, presentes nas muitas situações vividas com emoção.

Henfil e a ética médica


Para mim foi meio assustador ver que há uma certa inevitabilidade na desvirtuação do caráter de quem lida com a Medicina. Deve ser minha tendência pessimista, porque o livro até tem um desfecho moral. Mas, ao lembrar que muitas coisas mostradas acontecem de modo muito semelhante ainda hoje, a minha tendência acaba falando alto.

Daí, considerei A Cidadela uma leitura obrigatória. Principalmente para os médicos. Passei a achar estranho médicos que não leram esse livro. Não só para os médicos; obrigatória também para pacientes (nós, né?), para aprendermos a olhar os truques dos doutores e da indústria farmacêutica.

Um livro de impacto

Parece que a criação do sistema de saúde inglês (National Health Service), cerca de uma década (1948) após a publicação do livro, foi aprovada como consequência dos debates disparados pela obra. É crível, mas pouco do livro sugere explicitamente uma solução estatal / socialista, como é o NHS. É clara a precariedade do sistema que existia na época na qual a história foi passada e escrita.

Entendi muito mais a origem do viés socialista do NHS quando assisti o excelente documentário O Espírito de '45 do cineasta esquerdista Ken Loach. O filme descreve a campanha, ascensão e governo do Labour Party (trabalhistas) logo após a guerra, sob o mote "se nos unimos e nos esforçamos para vencer Hitler, por que não fazermos o mesmo para reconstruir o país?". Assistir o filme mexe até com o mais empedernido liberal. Deve-se depois assistir o filme Thatcher como antídoto. Rsss...


Logo em 1938, ano seguinte à publicação do romance, foi lançado um filme. Quase uma dezena de outras adaptações foram feitas para a tv e para o cinema, inclusive indiano.


A história

As resenhas do enredo costumam contar coisas demais sobre o livro. Não vou fazer isso.

Em 1921, o recém-formado Dr. Andrew Manson, escocês, 24 anos, vai trabalhar em uma pequena cidade do País de Gales dominada pela mineração de carvão. Seu trabalho associa clínica e pesquisa. A lida com os mais diversos tipos humanos, sejam pacientes, médicos, empresários ou burocratas é um ponto alto do livro. A sua luta diária, o sucesso da sua pesquisa e os benefícios que seguem, o progresso de status que acompanha seu crescimento na carreira, juntamente com a maturidade e as tentações próprias do ofício, transforma-o paulatinamente no oposto do que fora. Naturalmente o romance se encaminha então para crises pessoais que o levam a refletir sobre suas decisões anteriores.

Dito assim, não tem graça nenhuma, né?

Cartum de Waldez
em http://waldezcartuns.blogspot.com.br/2011/06/fale-com-seu-medico.html


Pelo caminho passamos por profissionais que se aproveitam de suas posições burocraticamente superiores para manter seus privilégios independentemente do mérito ou condição, pela indiferença à assistência aos lugares e indivíduos mais necessitados, pela charlatanice, pelos medicamentos inócuos, pela desinformação e incompetência, pela falta de saneamento, pelos que veem a verdade e são discriminados e até isolados socialmente.

Mas também vemos os que querem alterar a situação nem que tenham que fazer coisas não "legais"; vemos os que percebem a necessidade de empatia pelos seus pacientes; vemos os dedicados.

Muito mais há ainda: complôs para difamação; reconhecimento natural da competência pelos beneficiados por melhoras ou curas; e por aí vai. Tudo dentro de um romance.



O que mais me tocou foi ver a atração que o dinheiro e o status exercem quando se tem poder sobre a saúde das pessoas. Daí médicos que só se interessam pelo ganho social obtidos com pacientes ricos ou famosos. Daí também as redes de médicos que se recomendam mutuamente para alcançar a ascensão mútua. Daí os medicamentos e exames desnecessários, prescritos apenas para manter o cliente, frequentemente hipocondríacos, satisfeito. Daí a ostentação nos hábitos e consultórios. Daí a diferença de atendimento e atenção aos ricos e aos pobres. Daí os preços exorbitantes das consultas particulares. E muito mais. Tudo o que pode ser encontrado na mesma situação ainda hoje.

Charge de Sinovaldo


O Autor!

A. J. Cronin (wikipedia)


A primeira parte do livro é claramente baseada na experiência vivida pelo autor como médico em início de carreira. Todavia, sua vida como escritor me parece mais surpreendente. Escreveu muitos best-sellers que foram traduzidos para inúmeras línguas.

Archibald Joseph Cronin (1896-1981) escreveu mais de 30 livros, frequentemente adaptados para as telonas e telinhas. Pelo seu sucesso, há quem diga (NHS Scotland) que ele foi a J.K. Rowling do seu tempo.

Sua força está na narrativa, diálogos e caracterização de personagens interessantes. E também no realismo e na crítica social.

Seu romance The Stars Look Down, de 1935, inspirou o filme Billy Elliot e a canção (composta pelo Elton John) de abertura do musical faz homenagem ao livro.

Livro que inspirou o filme Billy Elliot


E a tal cidadela?

Ao final do livro era essa a pergunta que eu fazia.

Há duas menções a essa palavra no romance.

A primeira é Christine, que dialoga com ele sobre sucesso na vida no meio da segunda parte do livro:
- Não te lembras de que consideravas a vida como se fosse um assalto ao desconhecido, uma investida para a altura?... Era como se quisesses conquistar uma cidadela que não vias mas que tinhas a certeza de que estava lá, no alto...
A segunda menção é no último parágrafo:
E quando Manson partiu afinal, apressando-se para não perder o comboio, viu que as nuvens acumuladas no horizonte tomavam a forma de uma cidadela.
Haja memória para o leitor associar essa sentença à de muitas páginas anterior.



Antes de fazer a busca pela palavra no texto, fiquei intrigado por não ter entendido exatamente o último parágrafo. E resolvi olhar a versão que eu tinha do texto em inglês. Ahn? não há qualquer referência à palavra citadel, exceto no título! O que Manson vê no céu inglês são nuvens formando "the shape of battlements" - formas de muralhas!

O tradutor estava inspirado!

Um exame mais acurado mostrou que as duas versões não batiam. Parecem de escritores diferentes. A versão lusa apresenta muito mais detalhes, menciona muitas localidades que não aparecem na versão inglesa que eu tinha. Conclusão: meu ebook em inglês era uma adaptação e não o texto original.

Pode isso Arnaldo?

domingo, 9 de novembro de 2014

O Misterioso Caso de Styles

O primeiro Agatha Christie é bom?

por Luiz Carlos Monte
Agatha Christie - O Misterioso Caso de Styles


Nunca tinha lido um livro da Agatha Christie. E eles eram uma febre lá em casa. Minha mãe, por exemplo, diz que leu todos (acredito que tenha lido todos que estiveram ao seu alcance, não os 66 romances de detetive que a Agatha escreveu). Eu implicava com best-sellers...
E põe best seller nisso! O Guinness a aponta como o autor mais vendido do mundo, com mais de 4 bilhões de exemplares.
Nunca é tarde para começar e resolvi começar do começo: O Misterioso Caso de Styles, o primeiro livro dela, escrito em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial.
Gostei. Talvez não o suficiente para me tornar um aficionado. É o primeiro livro que ela escreveu, provavelmente seu estilo foi se aperfeiçoando com os anos. Mas para uma estreia, é um tanto inesperadamente perfeito.

Poirot entra em cena

Já nesse primeiro livro, ela apresenta quem se tornará o seu detetive mais famoso: Hercule Poirot. Suas características físicas, sua personalidade e seu método são introduzidos aí para todo o sempre. Também é justificada a sua origem. Poirot é belga, mas devido à guerra encontra-se refugiado na Inglaterra.
Poirot era um homem extremamente baixinho. Não deveria ter mais do que 1,60m, mas tinha seu orgulho próprio e andava de cabeça erguida. Sua cabeça tinha o exato formato de um ovo, mas ele nunca ligou para isso. Tinha um estilo militar; a limpeza de suas roupas era de invejar, acredito que causaria mais dor nele uma mancha de sujeira do que um tiro. Este homenzinho esquisito, que mancava um pouco, foi na sua época um dos melhores membros da polícia Belga. Como detetive tinha um talento extraordinário, conseguindo resolver casos complexos e emaranhados.
Outro personagem que ela produz para aparecer em várias histórias é o narrador desta história: Arthur Hastings, um oficial do exército inglês que, de licença para tratar da saúde, aceita o convite de seu amigo John Cavendish para descansar em Styles, uma mansão rural típica da época no interior de Essex. Nesse livro ele tem veleidades de investigador, o que acabará se tornando em outros livros.

A fictícia Styles fica em Essex
Dois policiais da Scotland Yard também aparecem no meio da história, com muito menor importância e caracterização. Todavia, um deles, Inspector Japp estará presente em outras histórias, conforme pesquisei.

Kobo

Para ler, usei o leitor de livros digitais Kobo que ganhei de aniversário. Nele armazenei uma infinidade de livros digitais. O nome Agatha é um dos primeiros a aparecer em ordem alfabética...
kobo
O livro no kobo
Comecei com uma versão em português. Até que cheguei a um parágrafo que simplesmente não consegui entender, pior do que os anteriores. Como tinha o original em inglês, fui verificar e vi que estava perdendo muito lendo em português. Traduções erradas, trechos omitidos e o estilo original perdido. Recomecei o livro, agora na sua versão original, em inglês. Como o Kobo tem dicionários embutidos, acessáveis por um toque nas palavras, não foi tão difícil quanto esperava.
Demorei mais, evidentemente. Nem sempre uma palavra era encontrada no dicionário, que mesmo assim é muito bom. Não tanto quanto a versão paga do Babylon que tenho no notebook e que também é acessível com um clique do mouse (mas não funciona no Chrome!!!).

Os personagens


Como não posso ler de carrada – passo até dias sem poder pegar no livro – o que me atrapalhou muito foram os nomes dos (poucos) personagens. Ora são identificados pelo nome completo, ora pelo sobrenome, ora pela sua relação de parentesco, etc. Eles são introduzidos todos de uma só vez, quando Hastings, o narrador, chega a Styles e é apresentado aos próprios. A partir daí, é a memória do leitor que vale.
Listo os personagens (com fotos de atores obtidas em http://de.agathachristie.wikia.com/) para ajudar os futuros leitores. São:
  1. Arthur Hastings (Hastings) – o narrador, amigo de John e de Poirot.
    Hastings e Poirot (Hugh Fraser e David Suchet)
  2. John Cavendish (Mr. Cavendish; John) – amigo de Hastings, convidou-o a passar sua licença médica em Styles. Encontra-se em situação pré-falimentar.
    John Cavendish (David Rintoul)
  3. Emily Inglethorp (Mrs. Inglethorp;  Emily) – a madrasta de John, viúva do pai de John, casou-se pela segunda vez e mudou o sobrenome.
    Emily Inglethorp (Gillian Barge)
  4. Evelyn Howard (Evie; Miss Howard; Evelyn) – o eficiente braço direito de Emily na administração dos negócios.
    Evelyn Howard (Joanna McCallum)
  5. Alfred Inglethorp (Alfred; Mr. Inglethorp) – o novo marido de Emily, apresentado desde o início como um aproveitador, 20 anos mais novo que sua rica esposa. Todos, exceto a matriarca, o odeiam. Torna-se suspeito, para o leitor (através de Hastings, que conduz o leitor pelos acontecimentos) desde o início, antes mesmo de haver qualquer crime. Diz-se parente distante de Evie, que alega não o conhecer.
    Alfred Inglethorp (Michael Cronin )
  6. Cynthia Murdock (Cynthia, Miss Murdock) – enteada de Emily, que trabalha em um hospital da Cruz Vermelha (onde há venenos...!).
    Cynthia (Ally Byrne)
  7. Mary Cavendish (Mrs. Cavendish; Mary) – a esposa de John, que, sedutora, encanta Hastings. Este, por sua vez, releva sempre as ações dela. Este fraco por mulheres bonitas será um traço da personalidade de Hastings presente em outras histórias com ele.
    Mary Cavendish (Beatie Edney)
  8. Dr. Bauerstein – sumidade em venenos (!), recebe uma atenção mais do que especial de Mary Cavendish, o que causa ciúmes e suspeita em Hastings.
    Capa da edição alemã com os medicamentos de Emily
  9. Lawrence Cavendish (Lawrence) – irmão de John. Ambos são filhos da primeira esposa do pai. Quando, após a morte dela, o pai se casou com Emily, e posteriormente morreu, a propriedade de Styles passou para Emily.
    Lawrence Cavendish (Anthony Calf )
  10. Hercule Poirot – famoso policial belga. Coincidentemente está na cidade próxima a Styles e sob a generosidade de Emily Inglethorpe.
    Hercule Poirot
  11. Empregados da casa, com destaque para a chamada Dorcas.
A matriarca Emily é intempestiva e muda seu testamento a cada briga. Só que...
...

Qualidades

A narração de Hastings, como disse, tem o propósito de conduzir as suspeitas do leitor. Mas estas suspeitas também são suspeitas, pois ele não tem método, ao contrário de Poirot. Este manobra o raciocínio de Hastings e até os próprios acontecimentos, mantendo o segredo de suas reais deduções até o final.
Simples, né? Só que não!
Tudo, cada palavra, cada linha, cada fato no livro é importante para o desfecho brilhante de Poirot. E não há perigo do leitor se esquecer de algum desses fatos (ok, nem todos...), pois o próprio Poirot frequentemente os retoma, infelizmente nos levando também para pistas falsas (arenques vermelhos, em inglês; peixes usados para fazer cães farejadores perderem uma pista). O próprio ato de não revelar e até manobrar as suspeitas acaba sendo justificado tintim por tintim pelo Poirot ao final do livro.
Aí está o grande mérito do livro. Os dados estavam lá, mas o leitor é incapaz de decifrar a realidade. Lógico que Poirot apresenta provas que não estavam acessíveis ao leitor e ao Hastings. Mas as conjecturas do que ocorreu poderiam ser feitas pelo leitor. As pistas falsas, na verdade, eram hipóteses que precisavam ser analisadas, e então aceitadas ou refutadas. Mas acabavam desviando a atenção do leitor de outras hipóteses.
Ela escreveu esse livro por conta de uma aposta de que poderia mostrar todos os fatos e, mesmo assim, o leitor não desvendar o mistério. Ponto para ela. O livro é muito boa diversão.
Mas nem tudo são flores. Não gostei e não aceitei certas manipulações do Poirot que poderiam afetar o destino dos indivíduos. Embora ele tenha sido movido pelas melhores intenções, achei prepotente e arrogante. Algo como um super-homem. Porque... e se ele morre no meio do caminho...

Ah! Leiam o livro!...

Styles é, portanto, o cenário do primeiro caso de Poirot. A mesma casa é também cenário do seu último caso, Curtains (Cai o pano), no qual ele morre, após 33 romances e 54 contos. O obituário de Poirot saiu na primeira página do New York Times, que, além desse, nunca publicou obituários de personagens fictícios.